Histórias de fantasia que vão muito além do entretenimento – Trama

Histórias de fantasia que vão muito além do entretenimento

Se você é um grande fã de fantasia ou conhece pessoas que curtem o gênero, provavelmente já está familiarizado com o argumento mais usado para justificar a sua leitura: a possibilidade de escapar um pouco da realidade ou do cotidiano. De fato, durante a pandemia, a fantasia foi o segmento mais consumido como uma válvula de escape, principalmente pelos jovens. Eu mesma posso dizer que o gênero me salvou de algumas várias crises durante esse período.

No entanto, ainda existe um grande preconceito com esse tipo de literatura, que é constantemente reduzida a apenas uma forma de entretenimento. Nos próximos parágrafos vou contar alguns outros motivos pelos quais valem a pena ser um Tramer e mergulhar nessas aventuras. Vem comigo?

Antes de mais nada, só esclarecendo que não há nada de errado em ler um livro só pela diversão. Contudo, em meio a tantos elementos fantásticos, universos paralelos, submundos, novos planetas, há traços nessas histórias que podem ser facilmente associados aos dilemas sociais e pessoais do mundo comum no qual vivemos, então a sua leitura pode ir muito além disso, se você quiser.

Enquanto eu lia os últimos lançamentos de fantasia da Trama, tive muitas reflexões sobre assuntos sérios que expandiram meus horizontes quanto ao gênero, pois, cada um a seu modo, explora temas complexos sobre preconceito, ambição, vingança, escolhas, miséria, crescimento e caráter. São assuntos que, ao contrário da magia, rituais demoníacos e novos mundos, estão presentes na vida real. Posso dizer que essas foram experiências muito enriquecedoras, pois é sempre interessante ver como os autores espelham os nossos problemas sociais em mundos completamente inventados.

Dividindo mais um pouco da minha experiência com você, a minha primeira parada foi em Sunder City, a cidade fantástica criada por Luke Arnold no seu livro de estreia: O último sorriso da cidade partida. O protagonista é o anti-herói Fetch Phillips, um faz-tudo atormentado pelos erros do seu passado. Em um cenário de pós-guerra, Phillips investiga o desaparecimento de dois seres fantásticos: um vampiro e uma sereia. Ele costuma oferecer os seus serviços apenas para os seres mágicos da cidade, uma vez que se sente culpado pela catástrofe que tirou os poderes dessas criaturas. Nesse universo, humanos e seres fantásticos convivem, até que, sentindo-se inferiores por sua condição não mágica, encontram uma maneira de secar a fonte de poder dessas criaturas. Enquanto eu fazia essa leitura, foi muito interessante descobrir o porquê dos conflitos internos de Phillips e relacionar os acontecimentos na trama com as causas dos nossos conflitos sociais também: a ambição do ser humano em ser reconhecido, em pertencer a um grupo e, é claro, em acumular poder não importando como ou o que seja destruído no processo de consegui-lo.

Em seguida viajei para Guerdon, a cidade antro do crime e da magia que é pano de fundo no livro A oração dos miseráveis. No universo criado por Gareth Hanrahan, vivem Cari, uma órfã sem-teto, Mastro, o portador de uma terrível doença que petrifica sua carne, e Ratazana, um carniçal que vagueia pelo submundo. Quando esses três ladrões são injustamente acusados de um crime, a sede de vingança os levará a descobrir verdades muito sombrias sobre o lugar onde vivem. Uma guerra mágica entre deuses está para eclodir na cidade e só os três juntos poderão proteger seu povo. É evidente durante a narrativa que as guerras religiosas e as intrigas políticas resultam em esquemas e trapaças com consequências diretas na vida da população. Fica fácil fazer a conexão com as nossas questões mundiais, certo?

E, por fim, em Uma bruxa no tempo, de Constance Sayers, acompanhei a protagonista Helen, uma mulher recentemente divorciada que, após um encontro às cegas com o misterioso Luke Varner, começa a ter sonhos muito estranhos relacionados às suas vidas passadas em diferentes pontos no tempo: uma jovem pianista na Paris dos anos 1890, uma atriz na Hollywood dos anos 1930, uma estrela do rock da década de 1970. Apesar dos elementos mágicos que aparecem em feitiços, bruxas e demônios, o enredo aborda temas pesados e pontos sensíveis extremamente reais que envolvem a violência contra a mulher, suicídio, aborto, entre outros assuntos muito relevantes nas discussões atuais, que são pautas para a revisão dos nossos valores.

De uma forma lúdica, os livros da Trama levantam esses tópicos e os desenvolvem de maneira intrigante, desafiando não só a sua imaginação, mas exercitando um olhar crítico e empático sobre os personagens. Estes apresentam algumas características que podem facilmente pertencer às pessoas ao seu redor, e com certeza haverá situações em que você não irá concordar com as suas escolhas. E quantas vezes isso já não acontece na realidade?

Portanto, sim, é verdade que livros de fantasia são uma fonte de entretenimento excelente. No entanto, não precisam ser só isso, podem também se tornar uma experiência de crescimento pessoal. E vale lembrar: a construção de um pensamento crítico, a partir dessas leituras mágicas, tende a ser bem poderosa, afinal de contas, estamos a todo tempo influenciando pessoas e sendo influenciados por elas. 😉

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