Entrevista com Angie Kim – Trama

Entrevista com Angie Kim

Conversamos com Angie Kim, autora de O julgamento de Miracle Creek, confira agora a entrevista exclusiva essa autora premiada que tem seu livro lançado em setembro/21 aqui na Trama.

1/ De onde vem a inspiração para o livro?

O julgamento de Miracle Creek é o meu primeiro romance — não apenas o primeiro romance que publiquei, mas o primeiro que tentei escrever — e, como tal, investi muito de mim mesma nele. O primeiro episódio da minha vida em meu romance vem da minha infância como imigrante coreana. Quando tinha onze anos, eu e os meus pais nos mudamos de Seul, Coreia do Sul, para Baltimore, onde vivi com os meus tios enquanto os meus pais geriam e viviam numa mercearia numa zona perigosa do centro de Baltimore. Saí da posição de me sentir uma garota inteligente com muitos amigos na Coreia para me tornar uma estrangeira numa escola secundária americana, sem falar ou compreender a língua, sem usar as roupas certas, sem conhecer ninguém. Há muita dessa experiência formativa na história que conto sobre a luta da família Yoo para se adaptar à América.

A segunda etapa importante do meu romance baseia-se na minha experiência como mãe de três filhos com questões de saúde de grande alcance. Um dos meus filhos tinha quatro anos de idade quando foi diagnosticado com doença celíaca e colite ulcerosa. Os tratamentos padrão não funcionavam — ele reclamava de dor no estômago, vomitava e perdia peso — por isso decidimos tentar um tratamento experimental que tinha ouvido falar, envolvendo a respiração de oxigênio puro dentro de uma câmara pressurizada: terapia hiperbárica de oxigênio (HBOT), que compõe o cenário do meu romance.

A terceira e última vertente que conduziu todos os segmentos e personagens a uma totalidade coerente foi a minha experiência como advogada de tribunal, que me deu as ferramentas para estruturar O julgamento de Miracle Creek em cerca de quatro dias de um julgamento por homicídio. Dada a minha familiaridade com os trâmites jurídicos e o que vi do agravamento dos conflitos interpessoais que o cenário pôde produzir, pareceu-me natural utilizar o suspense e a tensão dos tribunais para contar esta história.

2/ Como foi seu processo de pesquisa para os tópicos abordados durante a elaboração do livro?

Eu diria que minha “pesquisa” veio de minhas próprias experiências. Como dito acima, meu filho e eu fizemos HBOT na vida real, trancados dentro de uma câmara de grupo com outras três famílias durante sessões de quarenta horas de duração. Devido à presença de oxigênio puro e ao risco de incêndio que isso implicava, não podíamos trazer nada — telefones, brinquedos, eletrônicos, revistas — deixando-nos sem nada para fazer a não ser falar. Compartilhamos histórias de vida e trocamos informações sobre as várias doenças contra as quais nossos filhos estavam lutando. Foi uma experiência totalmente imersiva e intensa, e mais tarde, quando comecei a pensar em escrever um livro, pensei imediatamente na imersão, na intimidade e honestidade confessional que se desenvolveu naquele ambiente escuro e fechado, um caldeirão sob mais de uma forma.

3/ Você tem experiência com o autismo ou viveu com alguém com o espectro? Como você se preparou para falar sobre isso?

Com base na minha própria experiência pessoal com HBOT, tornei-me próxima das famílias das crianças com autismo e paralisia cerebral (com as quais fizemos as sessões de HBOT em conjunto). Algumas das mães são minhas melhores amigas hoje em dia. Compartilhei com elas os primeiros esboços de O julgamento de Miracle Creek e tive inúmeras conversas não apenas com elas, mas com outros leitores que são pais, avós e irmãos de pessoas com autismo, assim como com aqueles que possuem o transtorno do espectro autista.

4/ Se você pudesse fazer uma playlist com a essência do livro, quais canções, filmes ou programas de TV você usaria?

Eu diria que Sobre meninos e lobos como filme, principalmente porque este romance de Dennis Lehane é o livro que me inspirou, todos os dias, quando eu estava escrevendo O julgamento de Miracle Creek. (Na verdade, o título é uma espécie de homenagem a esse livro.) As vozes múltiplas POV (ponto de vista), a estrutura, o mistério do assassinato que não é apenas uma história de detetive, mas também sobre o “como” e o “porquê” — tudo isso são coisas que aprendi com Sobre Meninos e Lobos. Para a TV, eu diria que Law & Order, porque eu amo esse programa e o elemento dramático do tribunal é semelhante (pelo menos eu espero!). E finalmente, para a música, eu diria que a composição original, “Stormy Waves”, de meu filho, Steve Draughn, porque foi o que ouvi enquanto estava editando meu livro, e acabou sendo a trilha sonora do início e do fim do meu audiolivro. (Uma cópia está aqui: https://www.youtube.com/watch?v=G5I048NZP2A)

5/ Qual é a sensação de ter seu primeiro livro premiado com um Edgar Award e traduzido para diferentes idiomas?

Eu só comecei a escrever quando tinha quarenta anos, e O julgamento de Miracle Creek foi publicado na semana em que completei cinquenta anos de idade. Isso me dá tanta esperança por ter encontrado algo pelo qual sou apaixonada nessa idade, e agradeço aos leitores que compartilharam o livro entre si e me escreveram sobre o quanto ele tem impactado suas vidas. É impossível dizer o quanto sou grata por ter alcançado tantas pessoas ao redor do mundo.

6/ O que os leitores brasileiros podem esperar deste livro?

Espero que os leitores brasileiros tenham um livro que os fascine e os mantenha folheando as páginas até tarde da noite, ansiosos para descobrir o que aconteceu, quem ateou o fogo e, mais importante, por que e como? Mas sobretudo, espero que eles encontrem histórias que os ajudem a entender o que é ser uma pessoa diferente, o que é ser um pai e uma mãe desesperados por fazer qualquer coisa que possa ajudar seus filhos a encontrar a felicidade, dispostos a enfrentar qualquer sacrifício exigido por eles. E, finalmente, que possam encontrar conexão, amor e esperança mutuamente.

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